Otávio Leal

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O poder do Budismo - As quatro nobres verdades. A felicidade dos Iluminados

Os iluminados de escolas budistas ou não citam que existe a felicidade, mas também o sofrimento, que não pode ser negado.Ter felicidade é não se surpreender com momentos de sofrimento. Eles existem.
No budismo, há o conceito das Quatro Nobres Verdades, que são instrumentos para reconhecermos a felicidade. Esse método que você aprende agora é seguido por milhares de praticantes, budistas ou seguidores de outras crenças. E tem dado resultado a milhares de anos.
1ª nobre verdade: o sofrimento existe para todos.
Em maior ou menor proporção, sofremos com mágoas, morte física, perdas, tristeza — há infelicidades na vida. Não negue isso, mas fique alerta com seu sofrimento.
Mestres e meditadores encaram com muita consciência os momentos de dor. E o homem moderno cria toda espécie de fuga contra as origens da dor: álcool, cigarro e drogas variadas. São João da Cruz, que passou por momentos de muita dor, escreveu Noites escuras, um clássico meditativo. Ele nos diz que a solidão nesses momentos pode nos tornar conscientes e nos ajuda a ultrapassar algumas situações.
Uma amiga sempre se queixava que em sua vida as situações de dor se repetiam. Dizia ela: “Eu já passei por isso”. Passou, mas não ultrapassou, não foi a fundo, não se desapegou.
É necessário entrar em contato com o sofrimento, e não fugir dele.A vida não é só felicidade.
Sucesso não é ser feliz. Sucesso é ser você.

Suzuki, o mestre zen, escreveu: “Toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”.

2ª nobre verdade: descobrir as raízes do sofrimento, as causas da dor.
Algumas dicas sobre as causas: apego, julgamento, inconsciência, descontentamento. Medite agora sobre o que causa sofrimento em sua vida.

3ª nobre verdade: interromper o sofrimento.
Evite pensamentos e atitudes que geram sofrimento.
Se o álcool é sofrimento, eu descubro por que bebo e transformo esse hábito.
Se o cigarro é sofrimento, eu descubro por que fumo e transformo esse hábito.
Se o jogo é sofrimento, eu descubro por que jogo e transformo esse hábito.

4ª nobre verdade: seguir o caminho para eliminar o sofrimento.
São oito passos ensinados ao mundo pelo iluminado Sidarta Gautama, o Buda histórico.
Esse caminho é chamado de Caminho Óctuplo por dividir-se em oito partes. Vamos a elas:

1ª parte: o caminho da compreensão dos fatos. Ter consciência.
Buda dizia que este mundo é saha — ou seja, impossível de apegar-se, pois nada é permanente.
Olhe o mundo sem ilusões ou distorções. Enxergue a verdadeira natureza de todas as coisas por detrás das ilusões. A verdade do que existe, e não de suas expectativas. Conheça suas raízes de luz e de sombra e seja consciente delas.

2ª parte: o caminho do pensamento e da intenção correta. Falar mentalmente com benevolência.
É o falar com a mente, é a necessidade de a usarmos sem egoísmo. Trata-se do contentamento e das expectativas honestas no pensar em si e pensar nos outros.
A Dhammapada, um texto sagrado do budismo que reflete as palavras de Buda, é inspirador para entendermos a intenção correta:

“- O pensamento se manifesta como uma palavra na mente,
- A palavra se transforma em uma ação,
- A ação se transforma num hábito,
- E o hábito se cristaliza como temperamento”.

Portanto, fique consciente de seus pensamentos e dos resultados deles. E faça com que brotem na compaixão e no respeito para com todos os seres.
Da mesma forma que a sombra segue o corpo, nós nos tornaremos aquilo que pensamos.
Há uma prática do budismo chamada tonglen, que consiste, dentre outras coisas, em aceitar os encargos da vida sem se sentir sobrecarregado, e uma opção para alcançar esse objetivo é perdoar os outros e a si mesmo, abandonar a autopiedade, a culpa e a vergonha de ser você.

No Tao te king, de Lao Tse, está escrito: “Quando você aceita a si mesmo, o mundo inteiro o aceita”.

3ª parte: o caminho da atenção ao presente. Ter atenção plena.

Esse caminho consiste em usar nossa energia para o momento presente, pois é aqui e agora que podemos de fato Ser.

Dicas:
• Tenha atenção sempre e, o mais possível, consciência do presente.
• Conte suas respirações e feche os olhos nos momentos de inconsciência, para voltar ao presente.
• Preste atenção ao andar, ao mastigar, ao ouvir uma música, ao olhar sem julgar, ao namorar, ao dançar, enfim, em todos os atos.

Não tente parar de pensar. Aliás quem tentaria? Isso já é um Koan: Quem tentaria parar de pensar?
Observe os pensamentos sem se identificar com os mesmos.

4ª parte: o caminho da fala correta. Ter atenção com as palavras.

Evitar palavras violentas, agressivas, perversas. Use as palavras para ajudar, e não para ferir.

“Melhor do que uma história sem sentido que tem mil palavras é uma única palavra com significado profundo que, ao ser ouvida, produz a paz.”
Buda

Muitos fazem orações pedindo só para si. Já assisti em missas na TV pessoas pedindo emprego só para elas, esquecendo, às vezes, milhões que nem comida têm. A fala correta pode ser praticada com essa oração chamada Meha, na qual mentalizamos por todos os seres. É uma mentalização sem egoísmo.

“Que todos os seres possam ser felizes, contentes e realizados.
Que todos os seres possam se sentir saudáveis e equilibrados.
Que todos possam ter aquilo que querem e precisam.
Que todos estejam protegidos contra o mal e livres do medo.
Que todos os seres tenham paz interior e bem-estar.
Que todos estejam despertos, liberados, independentes e não tenham limitações.
Que haja paz neste mundo e em todo o universo.”

Ao final dessa oração agradeça por todas as bênçãos que o planeta tem, a existência nos oferece.
Exercício da Palavra Correta

Essa técnica faz parte de mosteiros budistas no Japão. Durante um dia todo se utiliza da palavra correta.
• Lembre-se de já ao acordar pensar: “ Hoje será o dia das palavras gentis e amorosas”
• Durante todo dia mesmo se houver irritação, mantenha suas palavras suaves
• Observe seu tom de voz, fale com paciência, bondade e delicadeza
• Fale a verdade, não fofoque
• Diga às pessoas que se importam com elas (e se importe realmente)
• Não fale em excesso
.
5ª parte: o caminho da ação correta. Não prejudicar ninguém, preservar e “acariciar” a vida e não matar.
Eis aqui o treinamento da generosidade, que estudaremos com mais detalhes no item “Quem dá é quem deve agradecer”.
A ação correta também é o estudo sobre “O caminho do meio”, filosofia tão ensinada por várias escolas de iluminação, como a taoísta, a budista e a hinduísta. Os Lamas ensinam que os antagonismos no mundo ou em nossa vida seriam resolvidos se ambos os lados cedessem um pouco, não se deixando dominar pelos extremos. Por exemplo:

• alimentação: nem pouco nem muito;
• trabalho: nem pouco nem muito;
• esportes: nem pouco nem muito;
• dormir: nem pouco nem muito;
• diversões: nem pouco nem muito.

Enfim, em todos os aspectos da vida, sempre o caminho do meio.

6ª parte: o caminho ao trabalho correto. Ecologia e Ética profissional
Trata-se de trabalho ético, ecológico, útil a você e a todos os seres vivos do planeta Terra. É um trabalho do bem, em vez de ficar a vida toda só pensando em como ganhar, gastar, economizar, ganhar, gastar, economizar... ad infinitum.
Dentro do budismo, há o conceito dos oito ventos mundanos, ou influências, que podem criar tristeza pessoal ou mundial.
Segundo esse ensinamento, todas as nossas intenções são regidas por essas influências e assim podemos perceber se nossas motivações são reais ou mundanas.
Os oito ventos mundanos são quatro pares de polaridades de desejo/aversão a seguir descritos:

• prazer / dor (a si e aos outros);
• ganho / perda (a si e aos outros);
• elogio / crítica (a si e aos outros);
• fama / vergonha (a si e aos outros).

Toda vez que temos apego e preocupação exagerada com o prazer, o ganho, o elogio e a fama geramos como desequilíbrio a reação contrária de dor, perda, crítica e vergonha.
Se observar o mercado de trabalho, você poderá notar como os ventos mundanos sopram em todas as direções, fazendo com que num instante se sinta um vencedor e no outro um derrotado, de acordo com os diferentes níveis de interesse individual e coletivo. Quando é o seu interesse que prevalece sobre o dos demais, você se sente feliz, vencedor. Mas quando é o do outro que prevalece sobre o seu, você se sente triste, enfraquecido e até derrotado.
Em várias peregrinações que fiz na Ásia encontrei situações de trabalho realmente escravo. Mas será que esse é seu caso?
Acreditar que alguém o escraviza e você não pode escapar é uma boa desculpa para não ir atrás de melhores oportunidades, bons salários, novas opções. Você poderá pôr a culpa em seu país, no patrão, na empresa, no destino etc.
Mas lembre-se do poder pessoal. Você coloca poder no que pensa e faz. Se você pensar e trabalhar com queixas, mau humor, falsidade, desmotivação, você encontrará tudo isso na vida. Ao contrário, se pensar e trabalhar nutrindo-se de energia, harmonia, boa vontade, leveza, relaxamento, bom humor, vontade de aprender, você estará fazendo bem a si mesmo.
Mude também a crença de que quem faz o que gosta não ganha bem. Conheço pessoas frustradas com o que fazem, mas escolheram isso em busca de poder, status, dinheiro a troco de cumprir ordens absurdas e assim passaram a realizar algo que odiavam. Com o tempo essas pessoas se tornam vazias porque só trabalham para ter poder.
Não espere que “os outros” valorizarem seu trabalho.
Você deve se valorizar e apoiar em vez de apenas esperar que caiam do céu elogios e apoio.

Perguntaram ao rabino de Kotzk:
— O mandamento “não roubarás” refere-se a não roubar do semelhante?
— Não só isso — respondeu Kotzk. — Não roubarás de você mesmo.

Portanto, que seu trabalho não roube o tempo que deve ser dedicado a outras atividades.
Tempo não é dinheiro.
O tempo não passa.
Quem passa somos nós, o tempo fica. Tanto que um dos apelidos de Deus no Judaísmo e Cristianismo é Eterno. O tempo é eterno. Já que é você quem passa pela vida, aproveite-a.
Se tem dificuldade em gostar do que faz, aqui vão algumas dicas:
• Lembre-se de que você não é seu trabalho. Ele, sim, é uma parte de sua vida, não tudo.
• Respire fundo nos momentos difíceis.
• Medite sempre se seu trabalho ou a empresa onde trabalha são bons para o planeta. Se ela faz algum mal ao próximo, realmente será difícil alcançar a felicidade. Difícil, mas não impossível. Acredite no impossível, e ele se tornará possível.
• Não leve seu trabalho para o lar ou para dentro de você quando ele não estiver indo bem. Lembre-se de que poucos morrem de trabalhar e muitos morrem de estresse, que é causado também por falta de prazer. Muito pior do que o morrer de trabalhar é a morte por depressão. Em 1998 morreram por esgotamento profissional 2 milhões de pessoas, e por depressão, 58 milhões.
• Seja criativo todos os dias. Criar é prazeroso. Conheço muitas pessoas descontentes profissionalmente que, quando se tornaram criativas, passaram a ser mais contentes. Aqueles que trabalham como máquinas correm o risco de ser substituídos por elas.

Se você puder escolher a profissão dos seus sonhos, escolha. Não ligue só para o dinheiro. Os índios praticamente não têm nada material, mas nem por isso podem ser considerados pobres.
Procurar economizar um pouco é uma boa maneira de ter contentamento, pois nos momentos de imprevistos — e imprevistos acontecem — você não se desequilibrará e também para momentos prazerosos que requerem valores.
Se precisar, comece tudo de novo. Michelangelo, quando pintava a Capela Sistina, em certo momento não estava contente com seu trabalho e humildemente começou tudo de novo.
Na vida sempre há a chance de começar tudo de novo. E de fazer bem-feito e com boa vontade.
Reflita: o sucesso não é a “alma do negócio”. Sua alma é silênciosa e está no ócio. Você não precisa fazer nada para percebê-la.

7ª parte: o caminho do esforço correto.
Muitos são os que só se esforçam para ter posses, poder sobre os outros, dinheiro, carros novos, enfim. Esforço correto, segundo as tradições orientais, é:

1. evitar julgar (tratado no item);
2. evitar hábitos nocivos (cigarro, sedentarismo, inveja e drogas);
3. ter pensamentos iluminados:
-generosos,
-pacientes (a paciência surge com a tolerância),
-sábios (equilibrados, pensando não só em você),
-éticos com os seres vivos;
4. ser autêntico (evitar a comparação);
5. ser gentil e carinhoso
6. saber ouvir os outros com o coração, quando puder e desejar, ajudar.
7. silenciar a mente

8ª parte: o caminho da concentração correta.
É muito semelhante com o 3ª caminho, sobre a atenção plena. Na prática consiste em focar sua mente, concentrar-se em uma coisa de cada vez, antes de entrar em silêncio.
Como reflexão sobre o Caminho Óctuplo, proponho que medite em cada uma das partes estudadas e defina para si mesmo no que elas consistem em sua vida. Trata-se de seus pontos de vista ou pontos de intuição.





Texto do livro: Quero mesmo é ser feliz - autor Otávio Leal - Editora Alfabeto Texto colaboração de: Otávio Leal (Dhyan Prem) diretor da Humaniversidade - (11) 5055-2800


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